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A invisibilidade das pessoas com deficiência na ação climática

O que acontece quando a saúde de uma pessoa piora devido a condições climáticas extremas? Na maioria das vezes, essa pessoa infelizmente falece. As pessoas com deficiência são afetadas desproporcionalmente pelas mudanças climáticas e, no entanto, poucas ações são implementadas para ajudá-las a sobreviver. Conversei com Sébastien Jodoin, um professor da McGill University em Montreal, Quebec , para perceber o que pode ser feito para mudar essa realidade.



Em julho de 2018, uma onda de calor em Montreal matou 66 pessoas. Dessas vítimas, três quartos eram deficientes. “Certos problemas de saúde são afetados pelo calor e, portanto, as pessoas com deficiência são desproporcionalmente afetadas por mudanças climáticas extremas”, explica Sébastien Jodoin, cofundador e diretor do programa de pesquisa Disability-Inclusive Climate action na McGill University. Ele criou o programa em 2020, quando o seu olhar sobre o mundo mudou ao ser diagnosticado com esclerose múltipla. "Percebi que, até hoje, poucas ações foram implementadas para incluir pessoas com deficiência na ação climática, embora essas pessoas fossem excessivamente afetadas pelas mudanças climáticas", acrescenta o professor.


O programa surgiu da interseção de sua experiência de trabalho em direitos humanos e mudanças climáticas e o objetivo era produzir conhecimento com pessoas com deficiência. "Organizamos eventos com outras organizações para dar um espaço às pessoas com deficiência onde elas podem ser ouvidas. Também publicamos relatórios onde analisamos políticas climáticas em todo o mundo", descreve Sébastien Jodoin. E os relatórios são cruciais para entender como deficiências e questões ambientais se cruzam porque os dados sobre o tema são escassos.


Mas então, quantas pessoas têm uma deficiência?


Em 2017, um em cada cinco canadiano com 15 anos ou mais, ou cerca de 6,2 milhões de indivíduos, tinha uma ou mais deficiências, de acordo com um relatório do governo. Além disso, a prevalência de deficiência também aumenta com a idade: o relatório afirma que 47% da população com 75 anos ou mais tinha uma deficiência. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (WHO) estima que 1,3 bilião de pessoas, cerca de 16% da população global, sofre de deficiência significativa."Também há uma percentagem maior de deficiências em comunidades indígenas devido a traumas e produtos químicos tóxicos e em pessoas racializadas”, acrescenta o professor.




"O que as pessoas não percebem é que não são apenas as deficiências que tornam as pessoas mais vulneráveis. Existem condições subjacentes nas quais as pessoas não pensam, como ter um ar condicionado em casa, ter familiares ou uma comunidade assistindo-as, ou ter um governo que tenha um plano para ajudá-las nas alturas de temperaturas extremas. Se essas coisas estiverem em vigor, as pessoas com deficiência podem sobreviver. Mas o que os relatórios mostram, é que muitas pessoas com deficiência, por exemplo, em Montreal e Vancouver, vivem em bairros de baixa renda ou na pobreza", analisa Sébastien Jodoin.


O governo canadiano, de fato, relata que as pessoas com deficiência têm menos probabilidade de serem empregadas do que as pessoas sem deficiência. Elas são mais propensas a viver na pobreza: o que também é o caso no resto do mundo. A Organização das Nações Unidas (ONU) explica que esse fenômeno é "devido a barreiras na sociedade, como discriminação, acesso limitado à educação e ao emprego e falta de inclusão nos programas sociais". Embora os dados sobre o tema permaneçam escassos, os dados disponíveis mostram que, em geral, a proporção de pessoas com deficiência que vivem abaixo da linha de pobreza nacional ou internacional é maior (em alguns países, chega a dobrar) do que a proporção de pessoas sem deficiência.


"Muitas pessoas com deficiência, por exemplo, em Montreal e Vancouver, vivem em bairros de baixa renda ou na pobreza"

Em 2006, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (UNCRPD) obrigou especificamente os Estados-membros a cumprir os direitos humanos das pessoas com deficiência. Além disso, a UNCRPD exige que os Estados assegurem a participação dessas pessoas no desenvolvimento e implementação de legislação, políticas e outros processos de tomada de decisão sobre questões relacionadas a elas, como sua proteção e segurança em situações de risco, incluindo situações de emergências humanitárias e desastres naturais.


Se tantas pessoas têm uma deficiência e existem políticas para garantir seus direitos, por que ainda não são incluidas em relação aos problemas ambientais?


"É um problema de "ableism", ou seja discriminação contra as pessoas com deficiências. O que a pesquisa nos mostra é que existe a suposição de que todos têm a mesma capacidade", desconsola-se Sébastien Jodoin. Para ele, os países que assinaram a convenção da ONU não cumpriram suas obrigações. No Canadá, por exemplo, o governo concentra-se principalmente em crianças e idosos quando se trata de crises climáticas severas, embora estudos de 2021 e 2022 sugerem que incluir pessoas com deficiência no processo de criação de políticas podem ajudar a "repensar o desenvolvimento sustentável2, construir "vias de desenvolvimento resilientes ao clima" e criar um "futuro mais sustentável".


Para Sébastien Jodoin, incluir e considerar as pessoas com deficiência é a única forma de mudar a realidade atual. Enquanto a sociedade continuar a ignorá-las, a ação climática não pode levar a um futuro sustentável para todos.

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